Portugal ganhou sem Ronaldo. Mas transformar Copenhaga num referendo sobre Cristiano seria um erro

Portugal sem Ronaldo mostrou em Copenhaga que continua a ter soluções, golos e personalidade.
Portugal precisava de uma resposta dentro do campo. E deu-a.
Na noite de 1 de outubro, a Seleção venceu a Denmark por 4-2 em Copenhaga, conseguiu a terceira vitória em três jornadas da Nations League e ficou com seis pontos de vantagem na liderança do grupo. UEFA.com
Tudo isto aconteceu sem Cristiano Ronaldo.
É inevitável que a discussão comece precisamente aí. O problema é quando termina aí também.
Portugal respondeu da melhor maneira possível
Depois de dias em que praticamente tudo à volta da Seleção passou pela situação entre Ronaldo e Jorge Jesus, havia uma pergunta importante antes do jogo:
como reagiria a equipa?
A resposta foi bastante convincente.
João Cancelo abriu o marcador após assistência de Gonçalo Ramos. Mikkel Damsgaard empatou, mas Ramos colocou novamente Portugal em vantagem ainda antes do intervalo.
A Dinamarca voltou a empatar, desta vez através de Rasmus Højlund. Portugal não se desorganizou.
Vitinha fez o 3-2 e João Félix fechou o resultado num contra-ataque para o 4-2 final. A UEFA destaca precisamente a participação de Ramos nos dois primeiros golos portugueses e a capacidade da equipa para recuperar a vantagem depois do segundo empate dinamarquês. UEFA.com
Isso, para nós, é a parte mais importante da noite.
Gonçalo Ramos respondeu dentro do campo
Há ainda um detalhe impossível de ignorar.
Gonçalo Ramos marcou.
Num momento em que a utilização dos avançados portugueses está inevitavelmente ligada ao debate em redor de Ronaldo, Ramos podia facilmente ter entrado em campo carregado com uma pressão que nada tinha a ver com ele.
Em vez disso, fez aquilo que se exige a um avançado: participou no primeiro golo e marcou o segundo. UEFA.com
Depois do encontro, quando lhe perguntaram se toda a situação envolvendo Ronaldo tinha afetado a equipa, Ramos respondeu que não os tinha afetado e que o objetivo continuava a ser ganhar cada jogo. Operativ Məlumat Mərkəzi
Não precisamos de transformar essa resposta numa provocação.
É simplesmente a posição pública de um jogador que acabou de vencer um jogo importante.
O que sabemos realmente sobre Ronaldo
Aqui convém separar factos de interpretações.
Ronaldo deixou a concentração portuguesa antes do encontro com a Dinamarca. A sua saída aconteceu depois de dias de discussão sobre a sua utilização, após não ter saído do banco na vitória por 2-1 frente à Noruega.
Antes da saída, Jorge Jesus reconheceu que Ronaldo tinha ficado desagradado por não jogar, mas negou que o jogador se tivesse recusado a treinar. Ronaldo afirmou posteriormente que explicaria aos portugueses, no momento certo, as razões da sua decisão. Reuters
Existem várias versões e relatos sobre tudo o que aconteceu nos bastidores.
Enquanto os próprios intervenientes não esclarecerem completamente a situação, apresentar qualquer uma dessas versões como verdade definitiva seria precipitado.
Ganhar sem Ronaldo prova uma coisa. Não prova todas as outras
É aqui que a discussão facilmente descarrila.
Portugal venceu 4-2 sem Cristiano Ronaldo.
Facto.
Portugal apresentou várias soluções ofensivas e Gonçalo Ramos marcou.
Facto.
Isso demonstra que Portugal possui qualidade suficiente para ganhar jogos importantes sem Ronaldo.
Mas concluir automaticamente que Portugal é melhor sem ele já pertence ao domínio da opinião.
Um jogo não resolve uma discussão sobre um futebolista que representou Portugal durante mais de duas décadas.
Da mesma maneira, os 143 golos internacionais de Ronaldo não lhe podem garantir automaticamente um lugar no onze para sempre. A Reuters recorda que continua a ser simultaneamente o jogador com mais internacionalizações e o melhor marcador da história do futebol masculino de seleções. Reuters
As duas ideias podem coexistir.
Ronaldo pode ser uma figura gigantesca da história da Seleção e Jorge Jesus pode ter liberdade para escolher outro avançado.
E talvez seja aqui que Portugal tenha realmente evoluído
Durante muitos anos, imaginar Portugal sem Ronaldo significava imaginar imediatamente aquilo que a equipa perderia.
Hoje talvez devamos começar por observar aquilo que continua a existir.
Vitinha. Bruno Fernandes. Nuno Mendes. João Félix. Gonçalo Ramos. Rafael Leão. João Cancelo.
E muitos outros.
Portugal não precisa de apagar Cristiano Ronaldo para demonstrar que existe vida depois dele.
Aliás, seria uma forma bastante pobre de homenagear tudo aquilo que Ronaldo representou transformar cada vitória sem ele numa celebração da sua ausência.
O verdadeiro sinal de evolução é outro:
Portugal já consegue discutir quem deve jogar sem ter de perguntar primeiro se consegue sobreviver sem Cristiano Ronaldo.
Isso é muito diferente.
A discussão sobre Portugal sem Ronaldo não deve ser reduzida a um único resultado.
🫒 O Azeite da Questão
A vitória em Copenhaga não decidiu quem tem razão na polémica entre Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus. Também não decretou o fim de Cristiano na Seleção.
O que fez foi demonstrar algo que talvez fosse inevitável descobrir mais cedo ou mais tarde.
Portugal consegue ganhar sem Cristiano Ronaldo.
E isso não diminui Ronaldo.
Diz muito mais sobre a qualidade que Portugal conseguiu construir à sua volta e, agora, potencialmente depois dele.
O erro seria transformar a Seleção numa escolha entre dois campos: Ronaldo ou Jorge Jesus.
A camisola portuguesa é maior do que qualquer jogador e maior do que qualquer treinador.
Depois de três jogos, Portugal tem três vitórias e lidera confortavelmente o grupo da Nations League. UEFA.com
Essa deveria ser a notícia desportiva principal.
A conversa sobre Ronaldo continuará, e tem motivos para continuar.
Mas agora Jorge Jesus ganhou algo extremamente importante: argumentos dentro do campo.
E tu, depois do 4-2 na Dinamarca, achas que Ronaldo ainda deve regressar ao onze de Portugal ou chegou o momento de Gonçalo Ramos assumir definitivamente a posição?

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